Tuesday, July 22, 2008

ONU criará conselho inter-religioso


Madri, 21/07/2008 – Os participantes da Conferência Internacional para o Diálogo, que terminou sexta-feira em Madri, propuseram à Organização das Nações Unidas a criação de um conselho inter-religioso. O encontro, que contou com 250 participantes representando todas as religiões, foi aberto na segunda-feira passada pelos reis Abdal, da Arábia Saudita, e Juan Carlos, da Espanha. “O diálogo social não deve ser apenas inter-religioso, mas também intra-religioso para conseguir uma convivência pacífica no mundo”, disse em sua intervenção Federico Mayor Zaragoza, presidente da Fundação para uma Cultura de Paz e da agência internacional de notícias IPS (Inter Press Service).

Para trabalhar na busca da paz e da concórdia internacional, acordou-se formar um grupo de trabalho e impulsionar a cooperação entre as instituições religiosas, culturais, educacionais e de informação para “enfrentar a libertinagem, a decadência e a desintegração da família, e os diferentes vícios”. Também se acordou organizar encontros e congressos, pesquisas e programas informativos “para promover uma cultura de diálogo, entendimento e convivência pacífica” e introduzir o diálogo entre os seguidores de todas as religiões.

Além disso, se decidiu “convidar a Assembléia Geral das Nações Unidas a apoiar as conclusões desta conferência e aproveitá-las para impulsionar o diálogo entre os seguidores de todas as religiões, civilizações e culturas, organizando uma sessão especial para o diálogo”. Em sua intervenção, Zaragoza destacou que se cometeu um tremendo erro “ao mudar os valores da humanidade pelas leis do mercado”, e para enfrentar o problema criado é preciso viver compartilhando inclusive o conhecimento dos demais, acrescentou.

“Se aceitamos a igual dignidade para todos os seres humanos, se aceitamos o outro como igual, seja qual for seu sexo, raça ou ideologia, ficam resolvidos os problemas com os quais nos deparamos”, afirmou Zaragoza. “Para alcançar estes objetivos falta vontade política e o compromisso dos meios de comunicação, pois compreensão, conhecimento mútuo, conciliação e reconciliação são o mesmo caminho”, concluiu. A conferência foi organizada pela Liga do Mundo Islâmico, organização com sede na cidade saudita de Meca e que representa os povos das nações muçulmanas e as minorias dessa fé em outros países, com mais de 40 delegações em cinco continentes.

O diretor-adjunto da Associação Budista da China, Xue Cheng, disse que “todas as crenças têm um valor comum, que é a vida em harmonia com o outro”, baseando-se nisso, deve-se enfrentar com uma ética comum global os grandes problemas da atualidade, como as guerras, a superpopulação e a degradação ambiental. O rabino Cláudio Epelman, diretor do Congresso Judeu Latino-americano, afirmou que Deus criou os peixes, as aves, as plantas, mas criou um único ser humano.

Um árabe-cristão, o sacerdote Econo Nabbel Haddad, diretor-executivo do Centro Jordaniano de Pesquisas sobre Convivência Inter-religiosa, propôs que se propague uma cultura religiosa baseada na tolerância, para o quão há apenas um caminho, “Conhecer o próximo” através da cultura e do intercâmbio cultural. Haddad destacou que “os meios de comunicação desempenham um papel crucial, reforçando a comunicação com o próximo”.

A necessidade do diálogo global foi fundamentada por Nichiko Niwano, presidente da Comissão Japonesa no Conselho Internacional de Religião e Paz, ao destacar que “os povos viajem em um único veiculo, a Terra”. Esse veículo sofre problemas globais como os conflitos armados ou a mudança climática, que não podem ser enfrentados apenas por um país, por isso é imperativo um diálogo inter-religioso, afirmou. Todas as religiões são a mesma coisa expressa de diferentes maneiras, ressaltou Niwano.

O legislador José de Venecia, ex-presidente da Câmara de Representantes das Filinas, fez suas as palavras do teólogo e sacerdote católico Hans Küng: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões, e não haverá paz entre as religiões sem padrões éticos comuns”. Para Venecia a etica global “não substitui nenhuma crença”, muitos conflitos que se apresentam como religiosos na realidade são “políticos e sectarios”, como os que há em seu país, na ilha de Mindanao, e na Tailândia, Paquistão, Nigéria, Sri Lanka, Caxemira, Líbano, Sudão, Etiópia e Somália. Venecia foi quempropos a criação de um conselho inter-religioso dentro da ONU, iniciativa para a qual pediu o apoio dos reis Abdala e Juan Carlos.

Redwan Naef Al-Sayyed, presidente do Instituto Internacional de Estudos Islâmicos propôs “um documento de fundação para a criação de uma secretaria que assente as bases de uma instituição que seja um fator positivo na busca de denominadores comuns e de uma nova consciência global”, sugestão que foi aceita. No contexto da conferência, amplamente dominada pelos homens, foi realizada uma mesa-redonda sobre a situação das mulheres nas religiões, presidida pela teóloga espanhola Margarita Pinto.

Um de seus participantes, o também teólogo espanhol Juan José Tamayo, disse à IPS que as mulheres devem recuperar o protagonismo que, “sem dúvida alguma”, tiveram nas origens de todas as religiões. Apesar deste marco histórico, “elas são as grandes marginalizadas e esquecidas de todas as religiões, pois estas estão organizadas de forma patriarcal e hierárquica, excluindo-as do saber e do fazer religioso”, admitiu Tamayo.

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